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Jorge Correia: “Houve um economicismo exacerbado por parte do reitor” [entrevista na íntegra]

Jorge Alves Correia é natural de Coimbra e foi eleito para representar os estudantes do terceiro ciclo no Conselho Geral (CG) da Universidade de Coimbra (UC). Com 31 anos encontra-se a realizar o Doutoramento em Direito e está ligado à Juventude Social Democrata. Por Pedro Barreiro e Sandro Raimundo. Fotografias de Inês Duarte

Qual o balanço que fazes destas eleições? As eleições correram, seja do ponto de vista do período eleitoral, seja do acompanhamento eleitoral, de uma forma totalmente tranquila e sem quaisquer trocas de acusações. Nós adiantamo-nos relativamente aos outros candidatos num programa eleitoral muito profundo. E, aliás, do ponto de vista numérico, foi a maior votação de sempre e ficou demonstrado uma grande confiança em nós. Ganhámos com a maioria absoluta e tivemos, pela primeira vez, votos em todas as urnas, o que não é fácil pois há urnas onde há um número muito reduzido de alunos de terceiro ciclo.

Como vês a elevada taxa de abstenção (cerca de 90 por cento)? As pessoas não sentem que o CG toque no seu interesse direto e não veem grande benefício em envolverem-se.

A que projeto da tua lista é que vais dedicar maior foco de açãoJá obtivemos a grande vitória  de o reitor incluir no seu próprio programa uma medida que nós considerámos fundamental: a redefinição do novo modelo do corpo docente para os próximos 15 anos através da contratação de doutorandos para auxiliar aulas e exames. Esses doutorandos têm uma formação avançada e estão nas faculdades, portanto são capazes de ser um recurso maior do que o sistemático ‘outsourcing’ de pessoas que estão afastadas da universidade. Outro ponto é a questão das propinas. Nós não vamos conseguir acabar com a propina de um dia para o outro. Essa luta começou em 1990/92 e foi perdida pelas pessoas dessa geração e não pela nossa. As universidades estão muito dependentes não só do Orçamento do Estado mas também do valor das propinas. Nós podemos indicar fontes alternativas de financiamento para conseguir colocar o ensino gratuito e universal. É fundamental que algumas empresas requisitem os doutorandos do ponto de vista de empregabilidade e da encomenda de projetos estratégicos. Há também a necessidade de uma compatibilização maior, pois tem havido um desfasamento temporal entre o pagamento da bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e o pagamento da propina da Universidade de Coimbra. Estes desfasamentos temporais são importantes porque levam os doutorandos a entregar as teses mais rapidamente. O que acontece é que, tendo que pagar a propina dentro desse período que lhe é exigido vai entregar a tese, mesmo que não esteja concluída, o que tem levado a alguns comportamentos que não são bons do ponto de vista científico. Outro aspeto que me parece muito importante é a necessidade de criar uma revista, que será de investigação, gerida pelos alunos do terceiro ciclo com a marca da Imprensa da Universidade. Temos várias unidades orgânicas que têm alunos de grande qualidade que fazem papers, que submetem trabalhos e que muitas vezes não têm lugar onde os publicar. Outro aspeto importante é maior clareza na afetação das propinas onde existe um critério muito pouco rigoroso. Sabemos quanto pagamos de propinas mas depois esse dinheiro não é aplicado na investigação. Porque os doutorandos estão aqui sobretudo para fazer investigação e as universidades não estão aqui para dar aulas ou licenciaturas. Elas afirmam-se, sobretudo, como polos de investigação de excelência. E cada vez mais a licenciatura e o mestrado são apenas uma carta de condução para uma formação muito mais avançadas que é o doutoramento.

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Consideras que nas diferentes discussões faz sentido os estudantes votar em bloco? Sem dúvida. E na primeira reunião já o fizemos. Sem dúvida que devemos votar em bloco porque os nossos problemas acabam por ser semelhantes: a qualidade do ensino, o valor da propina, os estudos e trabalhos de investigação – que são cada vez mais usado nas licenciaturas e mestrados.

Como é que vês a constituição do CG? A divisão entre ciclos é importante. No entanto, existe um défice de representatividade do terceiro ciclo que podia ter mais um representante. Eu julgo que não seria descabido cada um ter, pelo menos, mais um representante. No terceiro ciclo estaria um, mais vocacionado para as áreas científicas que têm problemas específicos e outro para as humanidades e as artes.  Devíamos ter personalidades de reconhecido mérito, mas de qualidade comprovada e não personalidades que não estão ali com provas dadas. Na minha visão, as personalidades de reconhecido mérito estão claramente sobrerrepresentadas, muitas delas desligadas do mundo da UC. Eu não queria estar a fazer declarações que não estejam corretas mas nota-se, de facto, que o CG não deve funcionar como um cargo honorífico.

Qual o balanço que fazes do mandato do reitor? Evidentemente que um balanço tem sempre aspetos positivos e negativos. O reitor podia ter ido mais longe em determinadas matérias e ter sido, sobretudo, criativo. Portanto, houve um economicismo exacerbado por parte do reitor neste mandato. Mas por outro lado, por fruto das circunstâncias, o reitor teve vários cortes orçamentais todos os anos e teve que gerir um orçamento extremamente limitado. Porém, também não foi despedido ninguém e acho que esse é um aspeto positivo.

Está em cima da mesa um plano para pagar as propinas mensalmente para integrar a partir de 2015/2016. És a favor desta medida que foi acordada? Sim, com certeza. Acho que é uma medida que deve ser implementada para quem a requeira.

Dentro dos conselheiros estudantes já reuniram uma estratégia em conjunto na direção em que querem caminhar? Sim, nós podemos dizer que houve um primeiro momento em que estávamos totalmente unidos na questão de apresentação das nossas propostas ao Reitor. A ideia de fazer um caderno de encargos – que nós fizemos – prévio à eleição do reitor, num momento que nós entendemos que era essencial para ter um poder negocial maior. O que eu julgo é que estas definições estratégicas devem passar sempre por reuniões prévias, por vários pontos de vista e deliberarmos uma estratégia global.

Sobre a Direção Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) e os núcleos de estudantes, o Conselho Geral tem em conta um diálogo com estes dois órgãos? Eu prezo sempre o sentimento de unidade dentro do CG. Nunca gosto muito de pessoas, individualmente, criarem canais de comunicação para enfim, obterem benefícios próprios. Julgo que vamos falar previamente os cinco, e depois sim comunicar com esses órgãos. Claro que da nossa intenção é ter o máximo de comunicação possível, até porque os estudantes do terceiro ciclo votam para a DG/AAC. Nós estamos aqui para isso.

Qual a tua opinião sobre o novo Regulamento Pedagógico da UC? Tem aspetos que eu considero apropriados. No entanto, o problema dos processos disciplinares aos estudantes e a forma como isso foi conduzido e monopolizado na Reitoria é um dos aspetos a que, quando se falou do regulamento pedagógico, eu julgo que a comunidade académica não esteve muito atenta. Efetivamente, há uma excessiva concentração de poder no Reitor e a proteção das garantias dos estudantes não está acomodado. Quando há revisões a esses regulamentos, nós devemos organizar debates entre nós, devemos estudar as várias matérias, para quando chegar à altura podermos propor as coisas no devido tempo. O CG tem linhas estratégias quanto à ação pedagógica, investigação e portanto discute os aspetos que devem servir no fundo para os regulamento pedagógicos e de investigação.

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A revisão do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) tem sido adiada. Pensas que ainda irá acontecer? O que eu acho é que não tem havido vontade política para o fazer e portanto não vai acontecer. Há uma grande crítica ao recente modelo do Processo de Bolonha. Portugal foi dos países que foi longe de mais. Não era obrigatório uma semestralização como terá resultado do acordo. Nós tinhamos cadeiras anuais com uma avaliação que permitia aos estudantes no regime anterior ter mais tempo para aprender e para se preparar para os exames. A licenciatura tem vindo a tornar-se num ‘fast-food’ de programas e de apontamentos que passam de um ano para o outro. A própria organização dos cursos e das carreiras são aspetos para mudar mas não me parece que isso vá acontecer, acho que vai ficar tudo na mesma. Eu gostaria que nesses dois anos se trabalhasse muito não tanto do ponto de vista programático mas do ponto de vista da ação, isto é, que as comissões no CG tivessem algum trabalho de coordenação com quem executa as medidas. Na parte cultural, julgo que em vez de apenas se elaborar documentos se deveria ter algum trabalho de execução nos organismos autónomos como o Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV). Julgo que quem está na parte da investigaçao deveria ter um trabalho mais próximo dos diretores das faculdades e de quem, de facto, executa as decisões. O RJIES é importante, estamos a falar de um parametro regulatorio e normativo fundamental só que não é ele que define tudo, o que define tudo é a ação dos agentes universitários e dos seus representantes tem de estar coordenada com quem executa no terreno, caso contrário a sua ação é ineficaz. Não há coordenação a nível interno entre os departamentos, nem verdadeiramente há coordenação entre o CG e as suas comissões.

Que problemas apontas à UC? Sobretudo quando se usa aqui a ideia de coordenação é para ser levada a sério em termos técnicos. Tem de haver um modelo de pilotagem entre os vários departamentos. A complexidade que hoje são a candidatura a fundos estruturais tem conduzido a que se percam muitas oportunidades de financiamento na UC. A Divisão de Apoio aos Projetos e Investimento (DAPI) só tem três pessoas para um trabalho geral de coordenação de todas as unidades orgânicas. Um dos problemas maiores da UC é a falta de coordenação e de implementação as medidas no terreno.

Consideras que a máquina burocrática torna a UC pouco eficiente? A máquina burocrática tem o seu maior expoente na ineficiência nos serviços académicos. A UC não deve só renovar o corpo docente. O funcionalismo da universidade está envelhecido e a necessitar de maior qualificação para conseguirmos subscrever maiores projetos e fundos estruturais porque isso é o nosso futuro. Já vimos que com o Orçamento do Estado não podemos contar, as propinas não podem vir a aumentar excessivamente. Houve aquela propina para o estudante estrangeiro excecional e penso que é para manter, mas não é assim que conseguimos sobreviver. Nós contamos com a investigação, projetos de qualidade, inovação tecnológica.

Que balanço do mandato dos anteriores conselheiros estudantes? Eu julgo que foi um bom mandato, não quero individualizar porque acho que todos eles fizeram um bom mandato de qualidade e defenderam muito bem a comunidade académica. Sei que tiveram intervenções brilhantes no CG que me foram relatadas e o nosso objetivo é manter o nível.

Um mandato de dois anos é suficiente para realizar o que pretendes? É um mandato, se quisermos, realista tendo em conta que na comunidade académica vive-se muito a ideia de transição. A comunidade estudantil é a comunidade que por excelência que mais se renova. O conselheiro geral depois de definir as posições deve estar no terreno e não só lá dentro a exercer um cargo honorífico.

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