Ciência & Tecnologia

Estilos de vida modernos levam ao aumento da obesidade

Políticas mundiais revelam-se necessárias mas insuficientes para a modificação dos hábitos da população. Países nórdicos podem ser um modelo a seguir. Por Mariana Bessa e Rita Fonseca

Com origem multifatorial, a obesidade é uma doença que representa vários riscos para a saúde, como o agravamento de outras patologias. Na origem do fenómeno estão estilos de vida prejudiciais, que incluem alimentação desequilibrada, sedentarismo, ‘stress’, padrão de sono irregular e fatores económicos. Segundo um estudo mundial orientado pelo Imperial College London, que contou com a participação de Cristina Padez, docente e investigadora do Centro de Investigação em Antropologia da Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), “a população mundial tornou-se mais pesada em cerca de 1,5 quilogramas em cada década subsequente desde 1975”.

Os fatores críticos para o desenvolvimento da obesidade são “a alimentação muito rica em produtos processados, com açúcares e gorduras, a baixa ingestão de frutas e vegetais, o sedentarismo, a baixa atividade física e o tempo de sono curto”, segundo Cristina Padez.

Ainda que possa existir uma suscetibilidade genética para a doença, a investigadora não considera este fator determinante. “Em três ou quatro décadas é impossível o nosso fundo genético ter-se alterado, portanto aquilo que se alterou muito foi o ambiente em que vivemos”, explica a docente. Culpa ainda o tipo de alimentos disponíveis, assim como o aumento da vida citadina, em que “a nossa atividade requer pouco dispêndio de energia”.

A longo prazo, o excesso de peso leva a “problemas cardiovasculares, hipertensão arterial, diabetes tipo II, desenvolvimento de algumas formas de cancro, problemas ortopédicos (por causa do peso nas articulações) e problemas de autoestima, que resultam da discriminação por parte da sociedade”, alerta a investigadora. A doença tem também um elevado impacto económico no que diz respeito ao tratamento, já que “nas cirurgias para a obesidade mórbida, os gastos são elevados” e é feito um “acompanhamento das pessoas ao longo de vários anos”.

O combate passa pela mudança do foco do indivíduo para os governos e “tem de partir de decisões globais”, defende Cristina Padez. A inversão da tendência para a obesidade reside “na instituição de políticas governamentais e regulação alimentar”, de modo a que “os alimentos saudáveis sejam mais baratos do que os que têm maior concentração de açúcar e gordura”. No entanto, é difícil contrariar o padrão de alimentação das pessoas quando “existe uma indústria alimentar com uma influência forte em termos políticos”, contrapõe. O consumo de alimentos processados, com baixo valor nutricional, reforça a ideia de que “por detrás da obesidade há sempre uma questão económica”.

Um possível modelo a seguir tem origem nos países nórdicos. O baixo índice de obesidade, em comparação com o dos países do Sul da Europa, justifica-se “pelas medidas preventivas eficazes, estilo de vida equilibrado e mentalidade das pessoas que, apesar do clima, são mais ativas”, explica a docente. Há também um “maior poder económico que permite aos habitantes adquirir alimentos mais saudáveis”.

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Fotografia: Mariana Bessa

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