Ensino Superior

17 de abril: recordar a luta académica

Num regime autoritário “os estudantes não tinham o direito de se fazer representar”.  Marcelo Rebelo de Sousa enaltece a coragem dos estudantes de 1969. Por Carolina Marques

Alberto Martins, na altura presidente da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), apresentou-se de capa e batina, levantou-se e falou ao Presidente da República (PR) de então, Américo Tomás: “Em representação dos estudantes da Universidade de Coimbra, peço a palavra”. E logo uma salva de palmas se ouviu. A afronta ao regime ditatorial, a 17 de abril de 1969, despoletou um conjunto de acontecimentos históricos que são relembrados todos os anos nesse mesmo dia. No passado domingo, as comemorações do 47º aniversário do início da crise académica contaram com a presença, na sala 17 de abril, de Rui Alarcão, sócio honorário da AAC, o reitor da Universidade de Coimbra (UC) João Gabriel Silva, Alberto Martins e o PR, Marcelo Rebelo de Sousa.

Os presentes foram arrastados para uma autêntica viagem ao passado, com um vídeo de abertura e testemunhos dos convidados. Desde a história da academia até à sociedade e ao regime que vigorava nos anos 60, a comparação entre o passado e o presente foi uma constante.

Rui Alarcão afirma “agora há liberdade, na altura não havia, e isso é uma diferença essencial”. Aquele que se considera um “eminente académico” frisa que os acontecimentos que se seguiram ao 17 de abril “estão registados. E não em nota de rodapé.”

“Foi um acontecimento da academia no seu total, mas também da própria sociedade conimbricense, que se juntou a uma causa muito nobre num tempo muito conturbado”, lembra o presidente da DG/AAC, José Dias, também presente. O presidente defende que este dia deve ser relembrado “não num tom saudosista, mas sim como uma reflexão do passado para se projetar o futuro”.

Assumindo desde logo que este “é um dia dos estudantes, mais do que meu”, João Gabriel Silva, não deixa de ter “uma enorme satisfação, em dar a palavra aos estudantes, ouvi-los e partilhar com eles a discussão das ideias”.

O que é essencial numa universidade, segundo o reitor da UC, é liberdade de pensar, de encontrar caminhos, de discursar e de construir em comum, pois “não há machado que corte raiz ao pensamento”.

“Foi uma questão de honra, a honra da academia”

Quando olha a sala 17 de abril, relembra os momentos de pavor e de glória, por ter tido “a honra de ter sido o rosto da academia de Coimbra na luta contra a ditadura”. Alberto Martins relata os dramas de uma geração que acabava os estudos e se preparava para a guerra colonial.

Explica que, de 1965 a 1969, não existiam direções eleitas na AAC, mas sim comissões administrativas nomeadas pelo governo, de modo que “os estudantes não tinham o direito de se fazer representar”. A situação mudou quando a direção eleita pelos estudantes, em 1969, foi reconhecida pelo Ministério da Educação e se passou a entender “que os estudantes deviam participar em todos os momentos da vida da universidade”

O antigo presidente da AAC confessa que o pedido da palavra não se deveu a “razões políticas, nem a ideologias. Foi uma questão de honra, a honra da academia”. A coragem que faltava foi-lhe dada pelos estudantes que invadiram a sala. Seguiram-se detenções pela PIDE e confrontos entre forças do regime e população.

PR agradece aos estudantes de 1969

Iniciou-se, assim, uma luta estudantil onde se declarou greve às aulas. Coimbra foi sitiada, “a ditadura foi incapaz de bloquear a greve e encerrou a universidade”, explica Alberto Martins. Surgiu, então, um plano tão radical quanto os tempos que se viviam: a greve aos exames.

“Naquela altura, para muitos dos estudantes, não fazer exames era perder a bolsa, ir para a tropa, para o exílio, incompatibilizar-se com a família e amigos. Apesar disso, 85 por cento dos alunos da UC fizeram greve aos exames”, sustenta Alberto Martins, que realça o valor da solidariedade, “o maior valor das greves académicas”, como detonador da ditadura.

Marcelo Rebelo de Sousa recorda com agrado o “gesto percursor” do pedido da palavra, pois “é a rutura, a capacidade de sonhar e de afirmar que faz nascer as democracias”. Ao enaltecer a coragem de todos aqueles que lutaram contra o regime opressor, conclui com um agradecimento pela “palavra que foi tomada e exigida pelos estudantes”em 1969.

Com Margarida Mota

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Fotografia: Margarida Mota

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