Ensino Superior

Falta de docentes em Antropologia leva a contestação estudantil

Qualidade do corpo docente é colocada em causa por falta de financiamento. Estudantes do curso da FCTUC reivindicam mudanças através de petição online. Por Mariana Saraiva

Os estudantes de Antropologia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) colocaram, no passado dia 17 de maio, uma petição a circular na Internet com o objetivo de melhorar a qualidade do ensino a que afirmam ter direito, em particular através da forma como tem sido renovado o corpo docente.

O principal problema apontado passa “não só pelo problema de financiamento, mas pela qualidade da educação” que os estudantes estão a receber, adianta o presidente do Núcleo de Estudantes de Antropologia da Associação Académica de Coimbra (NEA/AAC), Tomás Pereira Botelho.

“Nos últimos dez anos, os professores do curso de Antropologia passaram sensivelmente de oito para cinco, sendo apenas três professores de carreira e dois professores convidados, o que cria uma instabilidade enorme no corpo docente”, como admite Fernando Florêncio, docente de Antropologia da FCTUC. As causas apontadas para este problema incluem as “regras de contratação de professores convidados e o novo regulamento de contratação da UC”, adianta. Os professores contratados permanecem, no máximo, quatro anos na instituição, ao mesmo tempo que o regulamento de contratação da UC oferece renovação de contrato a apenas 60 por cento dos docentes.

O presidente do NEA/AAC assegura que, “há um ano atrás, a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior [A3ES] avaliou a Licenciatura e o Mestrado em Antropologia Social e Cultural mas, apesar dessa avaliação ter sido bastante positiva, uma questão que considerou fulcral foi a necessidade de mais profissionais”. Portanto, este não é um problema novo para Tomás Pereira Botelho. “O relatório tem essa recomendação e foi aprovado pelo diretor do Departamento de Ciências da Vida, Jorge Canhoto, pelo reitor da UC, João Gabriel Silva, e pela vice-reitora para os Assuntos Académicos, Madalena Alarcão, que se comprometeram a melhorar a situação e, no entanto, até hoje ainda não houve nenhuma alteração”, acrescenta.

Tomás Pereira Botelho atenta que “não existem professores preparados de acordo com as cadeiras que vão lecionar e que assim a qualidade de ensino diminui, não só pela oferta bibliográfica como também pela qualidade de ensino do professor, numa área em que não é especializado”. Para reforçar a falta de profissionais especializados, o presidente do NEA/AAC não deixa de explicar que “a situação de mestrados, em termos de orientadores, é complicada e há determinadas especificidades dentro de cada área que não estão a ser oferecidas em Coimbra”.

Com a questão por resolver, o docente de Antropologia da FCTUC concorda que “a qualidade do ensino baixa necessariamente, já que é completamente diferente ter um corpo de professores estabilizado do que estar constantemente a renovar dois docentes em cinco”. Fernando Florêncio assume que o “necessário é estabilizar, assegurar um corpo mínimo de cinco docentes de lugares de carreira capazes de, por um lado, assegurar a continuidade do ensino e a sua qualidade, mas também a oportunidade de fazerem investigação”.

O diretor da FCTUC, Luís Neves afirma que, “em relação a algumas críticas sobre a qualidade do curso”, não está de acordo com os termos da petição. Porém, assume ter “consciência das dificuldades do corpo docente” e admite a existência para breve de “um concurso para um lugar de quadro nesta área específica, aprovado na FCTUC, e que de momento decorre junto da Reitoria da UC”. O diretor da faculdade garante ainda que “poderão não ser exatamente as mesmas pessoas, uma vez que a lei pode obrigar a fazer alguma rotação”, mas assegura que “não haverá redução de efetivos”.

A mudança, para Tomás Pereira Botelho, “é só uma: mais professores e a oportunidade de existir, pelo menos, mais um professor de carreira”. Numa conjuntura atual em que dois docentes podem ir embora, o presidente do NEA/AAC considera “inaceitável uma instituição como a UC não cuidar do prestígio dos seus estudantes e professores”. Justifica, assim, a necessidade estudantil de “agir e fazer com que a situação acabe”.

Com Margarida Mota

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Fotografia: Margarida Mota

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