Ensino Superior

Conselho de Veteranos da UC estende prazo de revisão do Código da Praxe até setembro

Alterações decorrentes do Processo de Bolonha no uso de insígnias pessoais motivam revisão do documento. Violência tida em conta por movimentos anti-praxísticos como ponto a eliminar. Por Margarida Mota

No início do passado mês de fevereiro, o Conselho de Veteranos da Universidade de Coimbra (UC) decidiu levar a cabo a abertura de um período de aceitação de propostas para alterações no Código da Praxe, que ainda não recebeu qualquer opinião.

De acordo com o dux veteranorum da UC, João Luís Jesus, as revisões a que o documento se sujeita “vêm na sequência de que este deve ser sempre objeto de escrutínio sobre o que é que se ajusta ou não ao modo de vivência, que se vai modificando ao longo dos tempos”.

Neste caso específico, alguns aspetos praxísticos relacionados com a instauração do Processo de Bolonha estão no cerne da questão. “Houve uma reestruturação do funcionamento das insígnias pessoais por parte das licenciaturas e mestrados integrados que provocou um bocado de confusão”, adianta. De acordo com o artigo 262.º do Código da Praxe, consideram-se insígnias pessoais o “grelo”, as “fitas” e a “cartola”.

Falta de divulgação apresentada como motivo

Apesar de numa fase inicial o prazo para a aceitação de propostas ter de terminar já dia 5 de agosto, período de seis meses estipulado pelo documento praxístico, este foi alargado até setembro do corrente ano.

João Luís Jesus considera que o período inicial não foi o mais adequado. O Conselho de Veteranos da UC “começou o processo no final de janeiro, em plena época de exames e de frequências, meteu-se o segundo semestre, logo a seguir vem a Queima e toda a gente se preocupa mais com esta do que com os problemas relativos à praxe. Depois metem-se exames novamente”, esclarece.

“Há ‘timings’ para a disponibilidade das pessoas e, no que diz respeito à praxe e à tradição, é o primeiro semestre, quando as coisas estão mais calmas e esperamos que haja mais participação”, como explica o dux veteranorum da UC. “Qualquer questão no Código da Praxe pode ser posta a discussão para ver se se pode melhorar e toda a Academia pode participar, independentemente da sua hierarquia praxística”.

No entanto, Ana Cláudia Bordalo, representante do movimento “Queima das Farpas”, cujo objetivo é abolir a Garraiada na Queima das Fitas de Coimbra, apresenta como causa para a não participação da comunidade estudantil “a forma como são divulgados os decretos, algo a alterar no Código da Praxe”. O facto de serem assuntos que interessam a todos os estudantes, sobretudo aos que participam na praxe, faz com a representante do movimento acredite que deva haver mais divulgação, “algo que não tem sido feito em relação às atividades do Conselho de Veteranos”. Acrescenta ainda que “apesar de os decretos estarem afixados na porta da Associação Académica de Coimbra, quem não vai lá com frequência acaba por perder essas informações, já que não ouve falar disso”.

A não apresentação de propostas para a revisão do Código da Praxe por parte da “Queima das Farpas” é ainda justificada pela representante do movimento pelo facto de no documento “não haver menção à Garraiada nem ao seu funcionamento”.

João Luís Jesus afirma que a divulgação desta iniciativa se processou com “várias pessoas a espalharem a palavra, na página de Facebook do Conselho de Veteranos e na comunicação social” quando o período se iniciou.

Violência apontada como defeito praxístico

“Há muitas pessoas que participam na praxe, mas que muitas vezes não têm noção dos princípios que a regem nem se mobilizam”. Esta é a perspetiva apresentada por Ana Cláudia Bordalo. A elaboração de mecanismos para promover a discussão do Código da Praxe é outro dos aspetos apontados como necessários pela representante. “Não só daquilo que se conhece diretamente como praxe, mas de todos os eventos que se relacionem com ela. No nosso caso específico, a Garraiada”, sublinha.

Em princípios de julho, 100 personalidades das áreas da educação, música, cinema, escrita, entre outros, assinaram uma “carta aberta a todas as instituições de Ensino Superior”, cujo foco é a praxe.

A presidente da Associação de Aposentados Pensionistas e Reformados (APRe!), Maria do Rosário Gama, foi uma das suas subscritoras. “A praxe não tem dignificado as universidades, na medida em que, se for violenta, fere a dignidade das pessoas e nada tem a ver com a instituição cultural em que se insere”, refere.

Formas alternativas de integração são ainda apresentadas por Maria do Rosário Gama. “Dar a conhecer as cidades e suas características às pessoas que lá chegam” pela primeira vez, “mas nunca aquilo que tem vindo a acontecer e que, dada a violência que existe, já causou mortes nalguns casos”.

Perante o conhecimento da iniciativa do Conselho de Veteranos da UC, a presidente da APRe! sugere que “se houver alterações, que sejam feitas no sentido de dignificar as pessoas”. Apesar da ainda não apresentação de propostas pelo grupo assinante da carta, adianta ainda que “se este quiser apresentar, também estarei disponível”.

Até à publicação do artigo, o Jornal A Cabra não conseguiu contactar Elísio Estanque e Rui Bebiano, subscritores da carta aberta às instituições de Ensino Superior sobre a praxe.

[Atualizado às 09h52 de 03/08/2016]

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Fotografia: Arquivo

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